A minha imaginação e minhas fantasias possuem um papel muito importante na minha vida. Mas quando digo importante, não me refiro a efeitos positivos. Essa importância reside no grande impacto que elas exercem em mim. Elas acalmam e distraem meu demônio. À primeira vista, pode parecer algo bom, mas se levarmos em conta que não é possível enganar meu demônio por muito tempo, começamos a perceber que inicia-se o surgimento de um grande problema.
E o que realmente acontece quando esse demônio se desperta e percebe que não está onde gostaria de estar? Bom, nesse instante, ele se rebela e me ataca com todas as suas forças, inverte o jogo, e agora é ele quem se arma com toda a sorte de pensamentos negativos para minar minha autoestima e alterar meu estado de humor.
É impossível nutrir um demônio, exclusivamente, com ilusões. Os demônios necessitam de experiência, de conhecimento. Somente assim, nos deixam em paz. Somente assim, provamos a paz.
Caminhar em desarmonia com nossos demônios é tarefa árdua, se não, impossível. Viver enganando nosso lado perverso proporciona consequências, no mínimo, desagradáveis. Desta forma, é importante conhecer nossos demônios, para que não ajamos de forma a enganá-los o tempo todo, proporcionando uma condição de repressão constante. Estamos sujeitos a convenções que nos submetem ao condicionamento e ao autocontrole, mas nunca podemos nos esquecer dos nossos demônios. É mais fácil administrar um demônio parcialmente satisfeito do que um que esteja totalmente transtornado com a forma como o tratamos.
Os demônios, como parte de nossa individualidade, variam na mesma proporção em que diferem os tipos de pessoas. Assim, podemos afirmar que não existe um único demônio que seja igual a outro. Por isso nossas reações são tão distintas e uns, como eu, padecem de estados mais extremos que outros.
Não conheço meu demônio há muito tempo e essa ignorância me custou, e custa, um preço relativamente alto. Passando pela "Moral do Senhor" até chegar no "Perverso" de Lacan, começo a compreender o que vem sendo exigido de mim. Enquanto não se conclui a metamorfose do ser perverso, alguns tipos de demônio persistem na produção de reações de retaliação em relação ao modo de vida que temos, pois somente quando rompermos a crisálida, é que o demônio se encontrará completo, em uníssono com nosso ser.